Quem medo sente, objetivos tem

Medo é como a luz,
Encandeia-nos com o seu brilho.
Palavras não lhe fazem jus,
Mas nos mostra o nosso caminho.

Não o confundamos com o receio,
Pois estes dois têm diferenças.
O receio sou eu que o planeio,
E o outro é feito de crenças.

Não há que ter vergonha,
Quem receia tem precaução.
Quanto ao medo é de quem sonha,
E é produto da nossa imaginação…

Perspetiva

    A vida são três dias. Nada somos neles, apenas caminhos feitos de escolhas e opções, em que o final mais comum é uma falésia tão profunda que nenhuma força nos traria de volta para cima. Caminhos esses que, nos dias que correm, se tornaram vias rápidas, onde o trânsito se acumula para chegar ao destino, mas que ainda assim todos seguimos na mesma direção. Aqui o problema é que esta falésia é traiçoeira. De longe parece uma colina, e promete-nos tudo o que achamos que queremos. Poucos são os que vêm ao longe e se revezam por caminhos mais sensatos, e os que o fazem, normalmente são dados como insanos ou ‘sem futuro’. Passo a explicar:
    O primeiro dia, é como o amanhecer, onde tudo parece novo e deveras excitante. Onde a relva é mais verde, onde as árvores são mais altas e onde os raios de sol se propagam mais longe. Onde todos os caminhos parecem mais curtos e mais otimistas. Avançamos com todo o vigor, esquecendo-nos que ainda teremos um longo caminho pela frente, e não sabendo que quem depressa começa, devagar acaba. É o dia mais quente dos três, deveras, mas com uma ligeira brisa matinal que torna o clima agradável. Neste dia radiante, a luz do sol cega-nos como em mais nenhum dos outros, de tão forte e brilhante.
    O segundo dia é como um dia de inverno, custa a começar, e mesmo depois se torna difícil de gerir. É neste dia que a relva seca, que as árvores são deitadas abaixo, e os raios de sol se escondem por detrás de grandes nuvens cinzentas que cobrem o céu. O clima é frio, e rajadas de vento forte sopram constantemente contra nós, tentando-nos impedir de continuar. Neste dia a luz do sol, ausente, não nos tapa a visão, mas ainda encandeados seguimos na mesma direção, pois já vamos a meio caminho e julgamo-nos sem tempo de voltar atrás. Então convencemo-nos que esta é a direção correta para termos algo em que acreditar.
    Finalmente, o último dia chega. É como a noite… Depois deste caminho todo, os que aqui chegam, estão na maioria cansados para apreciar o clima ou a vegetação, saturados de olhar para o sol e demasiado doridos para continuar em que direção seja. Por isso apenas ficamos, apreciando o que podemos e dando valor àquilo que fomos colecionando dos dois primeiros dias, as coisas boas, e as coisas más também. Aquilo que mais nos pesa na nossa consciência é a escolha de termos ido pela estrada onde todos vão por ser alcatroada e com fim à vista, e não pela estrada de terra batida, que por mais difícil que fosse de atravessar, não sabemos onde nos poderia ter levado. Tudo isto pela inocência do nosso ‘eu’ do primeiro dia…

Praga Glacial

Dentro de casas e abrigos,
Portas e postigos
Vendados de frio,
Indivíduos atarefados
Fazem impossíveis esforços
Para se eximirem,
De uma vez por todas,
Desta praga glacial.


Corações quentes unem-se,
Determinados a aquentar seus redutos.
Palavras ordeiras se pronunciam
Pelos sábios do agregado.
Palavras que lhes trarão estrapunas,
E que, embora apenas por instantes,
Os livrarão dos vastos agoiros escutados,
Sobre esta epidemia enfermiça.


O céu cinzento, escuro e frio,
Pinta o avesso do globo,
Fazendo sorrisos desaparecer,
Fogueiras se erguer,
E histórias se contar,
Para afastar esta praga mortiça.


Esta fortuna sazonal,
Que mais do que doença,
Torna sempre inevitavelmente,
É para uns, lúgubre,
Para outros, jubiloso.
Para o poeta… inspirador.

Um passarinho na minha mão

Um prado verde cheio de árvores,
Recheado de cheiros naturais da primeira estação,
Aqui me encontro a contemplá-lo
Com um passarinho na minha mão.


Nele camponeses trabalham para ganhar o sustento,
Trabalho, aqui, nunca é em vão.
Chega até a ser um tormento,
E eu aqui com um passarinho na minha mão.


Vivem longe, não têm descanso,
E às refeições comem migas de pão.
Têm más condições de vida e trabalho,
E eu aqui com um passarinho na minha mão.